✉ Quase uma Carta #1

(na véspera do carnaval)


São Paulo, 13 de fevereiro de 2026

Poucas pessoas sabem, mas eu tenho uma psicóloga de 84 anos. Quando conto isso, alguns se perguntam se ela consegue entender minha estrutura familiar, minhas escolhas, minha maternidade — como se idade impedisse escuta. Minha resposta é simples: ela é ótima.

Foi ela quem identificou, poucos meses depois de eu entrar pela primeira vez em seu consultório — um quartinho dentro da própria casa, em um bairro de São Paulo — o meu traço principal: um olhar melancólico sobre o mundo. Uma dificuldade de experimentar qualquer coisa com leveza absoluta.

Disse, recentemente, que estou quase curada. Que aquilo que antes me adoecia hoje já não me fere — e pode até me servir.

Quem convive comigo estranha quando falo em melancolia. Mas cada um habita a própria cabeça, e eu conheço a minha.

A diferença é que deixei de lutar contra esse olhar. Em vez de reclamar da dureza da vida, passei a examiná-la com mais cuidado. A tentar extrair da melancolia alguma forma de elaboração. Às vezes, um texto.

Estamos na véspera do carnaval.

As ruas começam a se preparar para o excesso de alegria. Há algo de bonito nessa entrega coletiva ao barulho, como se por alguns dias fosse possível suspender qualquer tristeza. Eu, no entanto, olho os confetes e lembro de outras coisas. De um carnaval sem fantasia. De uma vez em que me perdi da minha irmã num bloco. De um cheiro que traz memórias menos festivas.

Então paro. Penso nas pessoas dançando. Na alegria que sentem. No protagonismo de cada uma em sua própria história. E nesse equilíbrio delicado entre plenitude e perda que atravessa todos nós.

Lembro de Clarice e de Lygia. De Restos de carnaval e de Antes do baile verde. Da tristeza que só existe nesse grau porque há, como contraste, uma felicidade possível.

Eu não pulo carnaval. E talvez seja justamente por isso que hoje começo este gesto pequeno.

Dobrar uma folha imaginária.
Escrever como quem envia algo a uma única pessoa.

Esta é a primeira Quase uma Carta.

Quase porque atravessa telas.
Mas carta na intenção.

Um espaço fora do ritmo do feed.
Um lugar onde o texto possa chegar devagar — e ficar.

Se você está lendo, já estamos em correspondência.

Volto na próxima semana.

E, se o carnaval também te traz  alguma memória antiga, talvez valha reler Restos de carnaval, de Clarice Lispector, ou Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles. Há sentimentos que só ganham contorno quando passam pela literatura.



Mariana Lobato Botter





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