Imagens e afetos

Entre Valor sentimental, Agnès Varda e o que podemos fazer com a memória

Não sei exatamente o quanto alteramos nossas memórias. Mas sei que alteramos muito. Toda vez que lembramos de algo, lembramos um pouco diferente. Essa nova lembrança se soma às anteriores, e o que vai se formando não é uma imagem fixa, mas um conjunto de fragmentos, às vezes até desconexos, que, ainda assim, para nós, são profundamente verdadeiros. São a verdade possível. A única de que dispomos. E é a partir dela que seguimos adiante, até que outra transformação aconteça.

Uma grande amiga, dessas da vida inteira, leu meu romance de estreia e veio falar comigo com certa seriedade. Estava genuinamente preocupada. “Essa não foi a sua infância”, ela me disse. “Quando eu te conheci, você era uma menina feliz, tinha boas lembranças da sua infância. Esse olhar é o da adulta.”

Eu achei graça. Entendo a reação. Para quem me conhece há tanto tempo, é difícil aceitar que Pitangas Verdes não seja um livro sobre a minha vida. Usei, sim, referências pessoais: lugares onde morei, alguns dados biográficos, pequenas cenas reconhecíveis. Mas a história foi construída. E as memórias de infância, bem, quem pode dizer de onde vêm exatamente, ou em que estado se encontram quando reaparecem?

Há algo, no entanto, que faço questão de afirmar: o sentimento que atravessa o livro é verdadeiro. O ponto de vista, a experiência no mundo, a tonalidade afetiva. Isso tudo busca se aproximar, o máximo possível, de uma realidade que sabemos inalcançável. Não dos fatos, mas da sensação.

Recentemente assisti a Valor sentimental, de Joachim Trier. No filme, um diretor tenta reconstituir algo de si por meio do cinema. Não fica claro se o que está em jogo é a própria infância, a tristeza da mãe ou a da filha. O que vemos são memórias atravessadas por gerações, afetos que não se deixam nomear com precisão, uma espécie de mal-estar sem causa única, mas insistente, presente.

Talvez por isso o filme me tenha tocado tanto. Ele não parece interessado em dizer de quem é a dor, mas em mostrar como certos afetos atravessam gerações sem jamais se fixar num sujeito. Eles circulam. Encontram a infância, muitas vezes, como um terreno sensível: ali onde a ausência de pais ou de mães não se apresenta como um acontecimento dramático, mas como algo difuso, silencioso, difícil de localizar.

Essa é a verdade que me interessa.
É essa sensação que busquei em Pitangas Verdes.

Captar um estado, mais do que narrar uma história. Sustentar um clima, mais do que oferecer explicações.

Eu reconheço, muitas vezes, na arte (em obras completamente alheias), algo que julgava só meu. Encontrei isso nesse filme. E encontrei também em uma fotografia de Agnès Varda, vista no mesmo dia em que assisti ao filme em uma exposição dedicada a ela no Instituto Moreira Salles. A imagem, que reproduzo aqui, carrega um jogo de olhares silencioso, denso, carregado de coisas não ditas.

É ali que vejo minha personagem.
Não na biografia, não na cronologia dos fatos, mas nesse olhar. Nesse espaço entre o que foi vivido, o que foi lembrado e o que só pode ser sentido.





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